SELECTED INTERVIEWS


Revista JAZZ+
Ano 1, número 2 - Setembro de 2003
Entrevista concedida ao repórter Stefan Gan (versão integral)

 

1. Em todos os seus discos você busca uma postura jazzística. É inevitável, no entanto, que em interpretações de seus primeiros discos, Ao Vivo e Rios Vermelhos, você seja considerada uma cantora de MPB. Quanto tempo você levou para aprimorar seu estilo e mesmo pensar em seguir uma vertente mais jazzística em sua música?

O rótulo de MPB realmente cabe ao meu primeiro CD, “Ao Vivo”, que ganhou o Prêmio Sharp em 94. Já no segundo disco, “Rio Vermelho”, gravado no segundo semestre de 94 e lançado em meados de 95, a MPB ali presente já é bem mais sofisticada, com arranjos mais criativos e a incorporação de elementos jazzísticos, inclusive com solos magistrais do Ron Carter e do Sadao Watanabe. Há também um grande aprimoramento nas minhas interpretações, já com fraseado jazzístico, fruto da convivência com músicos como Luiz Bonfá, Tom Jobim e José Roberto Bertrami, tecladista do Azymuth. Eu sempre fui apaixonada por jazz, e já tinha gravado com o Art Farmer para a CTI, em New York, em 91, numa sessão produzida pelo Creed Taylor. As faixas no “Rio Vermelho” são mais longas, algumas foram improvisadas no estúdio, a voz guia acabou virando a definitiva, e pela primeira vez eu inclui duas músicas em inglês, que foram “Cry Me A River” e “Empty Glass”. A colaboração com o produtor Arnaldo DeSouteiro, iniciada a partir do “Rio Vermelho”, foi fundamental neste processo de “jazzificação” e principalmente de expansão do meu horizonte artístico.

2. Como foi seu primeiro contato com o jazz?

Ainda criança, na minha cidade natal, Niterói, eu comprei meus primeiros LPs de jazz, aqueles discos de capa branco & preta da Pablo, que naquela época eram lançados no Brasil pela Polygram, atual Universal. Discos de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Joe Pass, Oscar Peterson. Nunca poderia imaginar que, um dia, eu estaria lançando meus CDs nos EUA pela mesma gravadora, a Milestone/Fantasy, que comprou o acervo da Pablo. Tanto que, em algumas compilações, minhas faixas são colocadas junto com gravações da Ella e da Sarah, o que me dá uma alegria enorme. Também por “coincidência”, meu disco de estréia na Fantasy, “Serenade In Blue”, acabou saindo no Brasil pela Universal...Não dá pra reclamar, né? Voltando a questão dos contatos iniciais com jazz, devo dizer que trompetistas como Miles, Chet, Art Farmer, Freddie Hubbard e especialmente o Lew Soloff, cujos agudos eu adorava, tiveram uma grande influência no meu fraseado. Ainda hoje eu estudo muito os solos também do Phil Woods, sax-alto, e do Milt Jackson, vibrafone, cujos fraseados me inspiram muito.

3. Como é ser eleita pela revista DownBeat como a quarta melhor cantora de jazz no mundo, ficando à frente de figuras tarimbadas como Abbey Lincon, Norah Jones, Shirley Horn e Jane Monheit?

É uma grande honra. Antes eu já havia ficado em décimo lugar como cantora de jazz, na votação de 2000, e em terceiro lugar na categoria de “Beyond Artist”, atrás apenas de Sting e de Santana, à frente de Stevie Wonder e Joni Mitchell, por conta do sucesso do “Serenade In Blue”. Na votação de 2002, fiquei atrás apenas de Diana Krall (que se aprimorou muito nos últimos anos, fez discos suntuosos com Johnny Mandel e Claus Ogerman), da Cassandra Wilson (que tem uma voz humilhante, mas eu não gosto da estética dela) e da minha amiga Dianne Reeves, uma cantora perfeita. Achei um absurdo ficar à frente da minha cantora favorita, a Shirley Horn, isso não poderia ter acontecido de jeito nenhum...(rssss) Mas não posso nem vou ficar deslumbrada. Este ano eu posso ser a sexta ou a vigésima, ou nem aparecer na lista, porque esse tipo de resultado depende de muitas outras coisas, inclusive um aspecto importantíssimo chamado promoção. E isso não depende de mim, depende da gravadora, do business manager, é uma conjunção de fatores.

4. Você estourou nos Estados Unidos com um disco – Serenade in Blue - que foi feito para atingir o mercado de jazz norte-americano. Como foi a sua produção?

Foi uma produção muito caprichada e demorada, mas que nasceu da forma mais espontânea possível. Um belo dia o Arnaldo simplesmente sugeriu que eu gravasse um disco com as músicas que eu gostava de cantar em casa, tanto que o CD tem o subtítulo de “My Favorite Songs”. Coisas como “Moon River”, “The Shadow of Your Smile” e “Um Homme et Une Femme”. A princípio eu relutei, não achava que pudesse funcionar, porque eram músicas muito conhecidas e eu não queria virar “crooner”. À medida em que íamos pensando nas instrumentações e nos arranjos, eu vi que daria certo e fui me entusiasmando. No final, as músicas que eu mais “temia” acabaram sendo as mais elogiadas pela crítica internacional. As pessoas adoraram o arranjo de “Moon River” apenas com harpa e efeitos de teclado. O tratamento eletrônico, chiquérrimo, que o Fabio Fonseca deu a “Um Homme et Une Femme”, dando um “upgrade” na música, também agradou muito, as pessoas sempre pedem nos shows.

5. Como é pegar estilos de música diferentes, como o MPB, a música francesa e a italiana e fazer um “fusion” disso tudo em um disco essencialmente jazzístico?

Foi realmente uma coisa intuitiva, espontânea, embora pareça o contrário. Vale dizer que a música italiana, “Dio Come Ti Amo”, entrou apenas na edição japonesa, a pedido da gravadora de lá. Quando aceitamos a proposta da Universal para lançar o “Serenade in Blue” no Brasil, resolvemos reincorporar o “Dio Come Ti Amo” (limada da edição americana, porque não faria o menor sentido estar num disco de jazz) e ainda acrescentamos mais duas faixas-bônus: “Cristal” (da novela “Estrela-Guia”) e o meu primeiro sucesso no Brasil, “Iluminada”, tema da mini-série “Riacho Doce”. Isso ajudou bastante a vendagem no mercado nacional, me permitiu divulgar o CD até mesmo em programas populares como o “Domingão do Faustão”. Como eu sou uma pessoa inteiramente sem preconceitos de qualquer natureza, acho isso ótimo!

6. Neste disco, você buscou parcerias com grandes nomes do jazz brasileiro, como Eumir Deodado, Dom Um Romão, Marcos Valle e outros nomes consagrados do jazz mundial, como Gonzalo Rubalcaba e Jay Berliner. Como foram essas parcerias e a escolha do repertório, que vai do clássico Moon River ao “samba esquema novo” de Jorge Ben Jor?

O processo de escolha do repertório eu já expliquei. Quanto aos músicos, também não teve nenhuma “armação”, as pessoas foram chamadas da forma mais natural possível por serem músicos que eu adoro há muito tempo. O Jay Berliner eu curtia desde os discos dele com o Mingus, e também por causa daqueles LPs fantásticos na CTI com o Milt Jackson (“Sunflower”) e George Benson (“White Rabbit”). Sem falar que o Jay gravou “New York, New York” com Frank Sinatra no álbum “Trilogy”. A música “Aranjuez” era sob medida para ele, insuperável naquele tipo de solo de violão espanholado, e felizmente ele aceitou o convite para gravar em NY. O Gonzalo gravou no Rio, estava excursionando pelo Brasil, e eu era apaixonada por ele desde o primeiro LP que saiu aqui numa série de música cubana, da WEA. Com o Marcos Valle eu havia excursionado em 93 e 94, ele voltou a tocar ao vivo em função do meu convite, porque ele estava há cinco anos sem fazer shows. Ele também já tinha gravado no “Rio Vermelho”, assim como o Deodato havia participado do meu terceiro CD, “Almost in Love”. O Dom Um eu admirava devido aos discos com Tom, Sérgio Mendes e Weather Report, já tínhamos gravado no disco do Art Farmer.

7. Como foi a receptividade do disco nos EUA, não só a nível mercadológico mas também por parte da crítica musical?

Recebi umas 70 críticas maravilhosas e uma bem ruim. Mas o crítico era ex-namorado da divulgadora da gravadora, então não posso levar a sério. Aliás, situação semelhante aconteceu com o “Rio Vermelho”, que foi desancado apenas no Estado de São Paulo, numa crítica agressivíssima feita pelo meu ex-marido, uma coisa totalmente anti-ética. E crítica de ex-marido rancoroso não vale. No jornal O Globo, no Rio, reclamaram de eu cantar “Samba de Verão” e “Bonita” em inglês. Ou seja: não ouviram o disco, porque eu gravei “Samba de Verão” em português. E esqueceram de pedir ao Tom Jobim que escrevesse uma letra em português, porque “Bonita” só tem letra em inglês...(rssssss)

8. Você acha que foi mais fácil cantar primeiro para o público norte-americano para só agora, após mais de dez anos de carreira, ser apresentada à audiência brasileira?

Eu sempre trabalhei muito no Brasil, faço uma média de 50 shows por ano, já gravei oito temas para novelas da TV Globo, participei de inúmeras compilações e songbooks, excursionei por todo o país com o Azymuth em 96, tenho um público fiel que sempre me prestigia e que vem aumentando cada vez mais, então não tenho do que reclamar do público. As únicas “portas fechadas” existem em decorrência das máfias que dominam as programações de certos centros culturais, formando “panelinhas” impenetráveis. A Elizeth Cardoso, minha madrinha no início da carreira, me ensinou: “o artista não deve fazer obras para seu público, mas sim público para suas obras”.

9. Falando um pouco do início da sua carreira, você mostra versatilidade para interpretar clássicos da MPB e mesclar estilos. Em Koorax Ao vivo, de 93, você canta bastante Tom Jobim, Chico Buarque, e a maioria das músicas em português. Como foi a escolha das músicas e o processo de produção do disco?

Todas as músicas do “Ao Vivo” são cantadas em português. O disco nasceu como registro ao vivo de um show que eu vinha fazendo com Mauricio Carrilho (violão) e Paulo Malaguti (teclados). Tudo sem overdubs, com voz gravada direto sem nenhuma maquiagem de estúdio. Gravamos durante temporada na Sala Funarte, no Rio. Como eu tinha uma excursão marcada para o Japão, levei a fita e a JVC logo se interessou em lançar o disco, que depois saiu no Brasil pelo selo Imagem.

10. Como foi a experiência de lançar seu primeiro disco no Japão, em 1994, e ser muito bem aceita por lá cantando o que eles chamam de Brazilian Jazz? Como definiria esse estilo?

Graças a Deus, eu nunca fui rotulada de Brazilian Jazz no exterior, porque é um nicho de mercado muito pequeno, limitado. O disco “Ao Vivo”, lançado pela JVC, saiu com o carimbo de MPB, muito mal marketeado, e foi um fiasco de vendagem, apesar das ótimas críticas. Então, em 95 eu troquei de gravadora, assinei um contrato de longa duração com o selo Paddle Wheel da King Records, e tudo engrenou. Eles sabiam como trabalhar um artista novo, tanto que lançaram os primeiros discos do Michel Camilo e do Steve Gadd. O resultado foi que o “Rio Vermelho” chegou ao Top 10 das paradas pop e de jazz, puxado pela faixa “Cry Me A River”, que estourou nas rádios em dezembro de 95. Então eu fiquei conhecida como cantora de jazz. Só no Brasil é que usam o termo “Brazilian Jazz” para definir o meu trabalho.

11. Em Bossa Nova meets Drum’N’Bass, talvez o disco que mais mostra seu desejo de buscar interpretações virtuosas, como foi pular de Almost in Love para Bossa Nova meets Drum’N’Bass?

Eu me adapto bem a essas mudanças, gosto de desafios, preciso me sentir estimulada. Nunca fiz um disco igual ao outro, tenho prazer de surpreender ao público e a mim mesma. “Almost In Love”, de 96, um songbook do Luiz Bonfá, é um marco na minha discografia. O “Bossa Nova Meets Drum ‘N’ Bass”, de 98, foi pura diversão, uma decisão de aproveitar a minha entrada no circuito de dancefloor-jazz na Europa, e também uma conseqüência do sucesso do disco anterior, “Wave 2001”, que eu gravei no Japão em 97, pela primeira vez dando tratamento eletrônico, bem acid-jazz, a clássicos da bossa nova. Não busquei interpretações virtuosas, eu não planejo como vou cantar essa ou aquela música, o processo criativo é bem mais complexo. Se às vezes as interpretações parecem virtuosas são porque eu estudo muito, procuro manter a minha voz sempre em boa forma.

12. Você acha que a precursora do Drum’N’Bass no Brasil, uma vez que atualmente esse estilo é elogiado pela crítica brasileira na voz de Fernanda Porto?

O que eu sei é que eu gravei o disco em 98....(rssss) Então eu fui a primeira pessoa no mundo a fazer essa mistura. Naquela época, as pessoas no Brasil ainda nem sabiam o que era drum & bass, eu tinha sempre que explicar nas entrevistas. Fiz shows por todo o Brasil, inclusive em São Paulo, divulgando o trabalho, que tem músicas de Jobim, Bonfá, Marcos Valle e Dave Brubeck. Fui a primeira cantora brasileira a colocar DJ no palco, como membro da banda. Quem trabalhou muito comigo naquela época foi o Marcelinho DaLua, hoje DJ do grupo Bossa Cuca Nova. Mas as pessoas se esquecem rapidamente das coisas no Brasil.

13. Em Almost in Love, de 96, você está cantando mais em inglês, em tom já um pouco mais jazzístico. Como foi esse processo de “mudança” no seu estilo?

Acho que já expliquei quando contei a história do “Rio Vermelho”. Nesse sentido, o “Almost In Love” deve ser visto como mais um capítulo no processo da minha expansão estética. Mas eu nunca abandonei as minhas raízes, eu as internacionalizei.

14. Falando em Almost in Love, como foi a participação de Ron Carter no disco? Qual a influência que ele tem na sua música?

O Ron sempre foi o baixista americano preferido pelos músicos brasileiros. Gravou muito com Tom, Bonfá, Deodato, Airto, Flora, Dom Um, Milton Nascimento. Fomos apresentados pelo Bonfá, em 94, e ele aceitou gravar no “Rio Vermelho”. Então, nada mais natural do que repetir a dose no “Almost In Love”, já que era um tributo ao Bonfá. Além do Ron, que toca magistralmente em “Samba de Orfeu” e “Gentle Rain”, contei também com um solo antológico do Larry Coryell no “Samblues for Mr. Coryell”. Posso dizer que já tive a honra de tocar e gravar com os meus maiores ídolos, se eu resolvesse me aposentar hoje me sentiria plenamente realizada.

15. Em entrevista à Jazz+ número 1, Ron Carter ironiza os críticos que acreditam, em sua maior parte, que se um disco de jazz vende mais de três cópias, ele é comercial. O que acha disso?

Concordo plenamente com o Ron. Os críticos mais velhos, geralmente tradicionalistas e puristas ao extremo, acham que músico de jazz deve morrer pobre, doente e na sarjeta. Se a pessoa é bem sucedida, eles ficam com ódio e soltam os cachorros. Fazer sucesso é pecado. Conheço gente que não suporta a Diana Krall só porque ela é jovem, loura, bonita e rica. E o talento enorme dela, não conta? Clichês tipo “disco sem concessões”, “jazz verdadeiro”, “exemplo do puro jazz” e outras bobagens são uma vergonha. Desde quando o jazz foi uma música “pura”? Quem aborda essa questão muito bem é o Miles, naquela linda autobiografia.

16. Como foi gravar com o Tom em 1994 dois meses antes de sua morte, em É preciso dizer adeus, no disco Rio Vermelho, sendo ele um fã confesso de sua música?

Uma emoção indescritível. Gravamos em outubro de 94, logo depois ele viajou para Nova Iorque e veio a falecer em dezembro. Mas eu não sabia que ele já estava muito doente. Quem fez a ponte com o Tom foi a irmã dele, Helena Jobim. Graças a ela, o Tom ouviu o meu primeiro disco, que incluía várias músicas dele, e me ligou para dizer que tinha adorado. Quando o convidei para tocar no “Rio Vermelho”, ele aceitou de imediato. Gravamos três músicas, mas a única selecionada para o disco foi “É Preciso Dizer Adeus”, que ele próprio escolheu.

17. O fato de você ser mais conhecida no exterior do que no Brasil te incomoda? Que explicação você daria a isso? Você deseja e tem planos de fazer sucesso no Brasil? Acha que é possível ser famosa no Brasil cantando jazz?

Acho que já respondi tudo isso na pergunta #8. Quando a ser famosa no Brasil cantando jazz, acho que isso é possível sim. A Leny Andrade é uma prova viva disso. Já ser “popular” e vender 2 milhões de discos é outra estória.

18. Quais artistas tiveram uma influência marcante em sua formação musical e por que?

Além dos que eu já mencionei nas respostas anteriores, tenho que citar Dave Brubeck, Claus Ogerman e Don Sebesky. Por que? Porque são gênios!

19. Você acredita que há espaço para o jazz no Brasil?

Claro! Não existe a Ithamara Koorax? Não existe a Jazz+? (rsss)

20. O que você está ouvindo no momento e você acha que bons jazzistas estão ofuscados por uma música mais comercial ou eles estão vindo à tona e abrindo caminhos, como você vem fazendo?

Recebo e compro muitos discos, tenho uma coleção enorme. Ouço muitas coisas durante as turnês, então eu conheço vários músicos japoneses e europeus que mereciam ser famosos nos EUA, mas que não conseguem furar a barreira do mercado americano, que custa muito a aceitar inovações. O Jurgen Friedrich, que gravou comigo no “Love Dance”, é um dos melhores pianistas que eu já ouvi, vive com a agenda cheia na Europa, mas ainda não emplacou nos EUA, embora tenha ganho, em 97, o Gil Evans Fellowship Award, mesmo prêmio que revelou a Maria Schneider em 92. O disco de estréia dele na CTI, “Summerflood”, é uma obra-prima, mas nunca saiu nos EUA. Na Finlândia eu toquei este ano com um violonista fantástico, Jarkko Toivonen. E acabei conhecendo um excelente grupo de acid-jazz, o NuSpirit Helsinki, porque eles foram assistir ao meu concerto. Tem também o Chris Conway em Londres, e o Francesco Gazzara em Roma. Gente nova e talentosa não falta.

21. Agora que já fez sua estréia ao público e à crítica norte-americanos e brasileiros, o que você traz de novo em Love Dance – The Ballad Album?

É um disco de alta dose de emoção, o trabalho mais denso que eu já fiz. Algumas pessoas podem até considera-lo um pouco hermético e não estarão totalmente erradas. Mas adoro o CD, sinto muito orgulho do que eu consegui fazer ao lado de tão grandes músicos como John McLaughlin, Bonfá, João Palma, Mário Castro-Neves, o pessoal do Azymuth. Tem um arranjo genial do Nelson Ângelo para “Man Alone”, minha faixa favorita, com solos arrepiantes do McLaughlin na guitarra e do Zé Carlos Bigorna no sax-soprano. Tem gente que jura que é o Wayne Shorter! A faixa tem mais de nove minutos, mas mesmo assim está tocando bastante nas FMs de jazz nos EUA e também na Europa, onde o disco saiu pela Warner. Aliás, para minha surpresa, todas as faixas estão tocando nas rádios, até mesmo os duos de piano & voz.

22. Tem previsão para ser lançado no Brasil? E como está a sua agenda para shows?

Talvez seja lançado ainda em agosto. A agenda de shows já está praticamente lotada até o final do ano, incluindo excursões a Europa, Japão e Coréia, um mercado no qual venho investindo bastante.


Jornal A TARDE - Bahia
09/10/2003

A quarta voz do jazz

Eduardo Bastos

"Eleita pela Down Beat como uma das melhores cantoras de jazz, a brasileira Ithamara Koorax faz dois shows em Salvador"


Aos 37 anos de idade, a cantora fluminense Ithamara Koorax goza de um status digno de diva internacional. Foi eleita no ano passado pela revista americana Down Beat – considerada a bíblia do jazz – a quarta melhor cantora do mundo. A honraria não é nada modesta, principalmente quando se leva em conta que, entre as grandes deusas da voz no jazz, desfilaram nomes como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Nina Simone.

À frente de Ithamara, na atualidade, estão apenas Diana Krall, Cassandra Wilson e Dianne Reeves. E depois dela vem Dee Dee Bridgewater, Norah Jones, Jane Monheit e Shirley Horn. Mas a cantora não foi a única brasileira a chegar tão alto na votação dos especialistas da Down Beat. Nos anos 70, Flora Purim foi eleita a número um por vários anos consecutivos.

É com o prestígio de estar entre as melhores vozes do jazz do mundo que Ithamara Koorax chega à Bahia para duas apresentações em palcos totalmente diferentes. Ela, que já cantou por aqui em 1994, com Marcos Valle, junta-se nesta sexta-feira a Emílio Santiago, João Donato e à dupla Palmyra & Levita como atração do projeto Sua Nota é Um Show, a partir das 18h30, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. E, no próximo dia 17, canta no Hotel Sofitel, com direito a bufê de comida japonesa e abertura de Palmyra & Levita.

Ithamara lança em Salvador seu sétimo CD, Love Dance – The Ballad Album, que saiu nos Estados Unidos pela prestigiada gravadora Milestone Records e no Brasil pela Som Livre. Trata-se de um disco de baladas jazzísticas no qual a cantora registra canções em português, como Lígia, de Tom Jobim, e Olha Maria, de Jobim com Chico Buarque e Vinícius de Moraes, e em inglês, como a faixa-título, uma versão para Lembrança, de Ivan Lins, e April in Paris, na qual é acompanhada pelo violão de Luís Bonfá (presente ainda em Man Alone).

O CD traz a participação do genial guitarrista inglês John McLaughlin, do respeitado pianista cubano Gonzalo Rubacalba e de Marcos Valle, tocando teclados em O Amor é Chama.

No show que fará no Hotel Sofitel, Ithamara será acompanhada por músicos da Bahia, como Joatan Nascimento, Marcelo Galter e Ldson Galter. Na Concha, ela se apresenta com sua própria banda, que inclui a pianista Paula Faour.

Filha de cantora lírica, Ithamara se apaixonou pelo piano aos 5 anos de idade e começou a cantar profissionalmente aos 18. Passou dois anos fazendo jingles e backing vocals, até gravar sua primeira música, Iluminada, que virou tema da minissérie Riacho Doce (1990). O trabalho acabou impressionando um empresário japonês que, no ano seguinte, a levou para a primeira de várias turnês pelo Japão.

No currículo da cantora constam sete discos gravados (entre eles, Rio Vermelho, de 1994, Wave 2001, de 1996, e Serenade in Blue, de 2000), participação em nove trilhas de novelas da Rede Globo e em cinco trilhas de filmes. Apesar do prestígio internacional e de cantar regularmente no Brasil e no exterior, Ithamara Koorax ainda é pouco conhecida do grande público brasileiro, situação que começou a mudar a partir de julho deste ano, quando ela se apresentou no Domingão do Faustão. A seguir, a entrevista com a cantora.

A TARDE - Há dois shows marcados com você na Bahia. Um na Concha Acústica, dividindo o palco com João Donato, Emílio Santiago e Palmyra & Levita. Outro, no Hotel Sofitel. Como serão as duas apresentações?

Ithamara Koorax – No dia 10, estarei me apresentando com meu power-trio, formado por Paula Faour, Jorge Pescara e Cesar Machado, três músicos fantásticos que me deixam nas nuvens. Nunca tive uma touring-band tão boa! Temos viajado muito, fazemos uma média de 50 shows por ano, este ano tocamos até na Finlândia. Então, já estamos muito entrosados, com um repertório de mais de 100 músicas. Em razão do local grande, e do tipo de show, pretendo escolher na hora algumas músicas bem quentes, de impacto. Quero fazer uma homenagem a Dorival Caymmi, cantando a versão jazz-funk que gravei de Cala Boca Menino para o disco Street Angels, em 2000, que fez muito sucesso na Europa, principalmente. Uma pena não estar programado nenhum número com João Donato, um dos meus maiores ídolos, com quem já fiz shows emocionantes em São Paulo, em 2001, no Sesc e no Bourbon Street. E seria uma honra, claro, cantar com o Emílio, a quem eu tanto admiro. Quanto a Palmyra & Levita, são a melhor dupla de bossa-nova do Brasil, não tem para mais ninguém. Eles já abriram shows meus no Rio, e no bis cantávamos juntos Corcovado, para delírio do público. Faço questão de fazer algumas músicas com eles no show do dia 17, quando serei acompanhada por um quinteto organizado pelo trompetista Joatan Nascimento, de quem já me falaram maravilhas. Esse segundo show, no Sofitel, provavelmente vai ser mais jazzístico, com improvisos mais longos, até porque terei pouco tempo (acho que meia-hora) no show da Concha. Espero contar também com uma canja do Saul Barbosa, um grande compositor e violonista. Estou muito feliz com esses convites, porque serão meus primeiros shows individuais em Salvador, onde só tinha me apresentado uma vez, em 1994, com o Marcos Valle.

Na Concha Acústica, terá a chance de cantar para um grande público, já que a apresentação faz parte do projeto Sua Nota é Um Show. O que uma cantora de estilo sofisticado como o seu espera deste encontro com o público baiano?

Espero que o público goste! Eu não me considero uma cantora de estilo sofisticado, não, pelo menos no sentido de elitista. Eu canto jazz, mas também canto MPB. Curto tanto gravar discos de baladas jazzísticas, quanto gosto também de cantar músicas mais românticas e populares. Afinal, se o meu estilo fosse tão sofisticado, não teria empatia com o chamado grande público, eu jamais teria sido convidada para gravar dez trilhas de novelas da TV Globo ou para cantar no Domingão do Faustão agora em julho, onde peguei o ibope com 17 pontos e subi para 20. Tanto que o combinado era de eu cantar três músicas, mas acabei cantando seis porque o ibope foi subindo e eu fiquei 18 minutos no ar, direto. Fiquei hiperfeliz com isso!

Você foi eleita a quarta melhor cantora pela revista Down Beat. Nos anos 70, a mesma publicação conferiu honraria parecida a outra brasileira, Flora Purim. Este ano, Luciana Souza foi indicada ao Grammy de Melhor Vocal Feminino. Em sua opinião, o que as brasileiras possuem de especial para agradar a especialistas americanos de jazz?

Flora sabe cantar, Luciana sabe se promover. A Flora gravou discos espetaculares nos anos 70, realmente era uma cantora especial que inovou em inúmeros aspectos. Era criativa, sensual, incorporou efeitos eletrônicos ao estilo de improvisar, inovou mesmo, foi considerada a melhor cantora do mundo pela Down Beat durante seis anos seguidos. Já a Luciana Souza eu sinceramente não gosto, assim como não acho nada demais na Jane Monheit ou na Norah Jones, embora elas sejam muito superiores a Luciana, uma cantora muito limitada, tanto em termos técnicos como expressivos, de muita pose e forte marketing, mas pouco talento. A Astrud Gilberto, por exemplo, tinha pouca voz, mas esbanjava charme, tinha balanço, sabia dividir. A Tania Maria também construiu uma carreira brilhante. A Leny Andrade, excelente, nossa cantora pioneira no jazz, sabe improvisar como ninguém, só não deu certo nos EUA porque foi mal orientada. Mas a Luciana não tem nada disso, pelo menos por enquanto. Se ela tiver mais humildade e voltar a estudar, pode vir a melhorar um pouco daqui a uns dez anos.

Já li um elogio seu a Shirley Horn. Para você, quem são as melhores cantoras do mundo?

Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan são hors-concours, foram as primeiras que eu ouvi, mas curiosamente não me influenciaram. Talvez porque eu soubesse que jamais poderia cantar como elas (risos), naquele estilo de be-bop. Afinal, tenho a humildade que a Luciana não tem. As cantoras que mais me influenciaram foram Carmen McRae, Betty Carter, Shirley Horn, Helen Merrill e Rachelle Ferrell, todas estupendas. Além de Elis e da minha madrinha Elizeth Cardoso, obviamente. Mas os cantores também sempre me inspiraram, especialmente Mark Murphy, Tony Bennett, Mel Torme e, claro, Sinatra. Em termos de divisão, estudo diariamente os discos e vídeos do João Gilberto, e em termos de fraseado as maiores influências vêm de trompetistas como Miles Davis, Chet Baker, Freddie Hubbard e Lew Soloff.

“Faço uma música sem fronteiras”

A cantora fala sobre os artistas com quem já gravou e o próximo disco que será lançado em 2004.

Como John McLaughlin foi parar em seu disco e como foi gravar com um músico como ele?

Nos meus 13 anos de carreira, eu já tive a honra de gravar com os meus maiores idolos: Tom Jobim, Luiz Bonfá, Ron Carter, Larry Coryell, Sadao Watanabe, Gonzalo Rubalcaba, Mario Castro-Neves, Claus Ogerman, Dom Um Romão, João Palma, Hermeto Pascoal, Juarez Araújo, Eumir Deodato, Jay Berliner, o grupo Azymuth e muitos outros. O John acabou tocando no meu novo CD, Love Dance, porque adorava o Luiz Bonfá, já tinha gravado Manhã de Carnaval várias vezes, mas não conhecia o Bonfá pessoalmente. Quando o John tocou no Rio em 97 ou 98, eu levei o Bonfá para assisti-lo e eles se encontraram no camarim. Assim, o John também conheceu o meu trabalho, elogiou os meus discos. Combinamos de gravar algumas coisas juntos, e isso acabou acontecendo em setembro de 2000, poucos meses antes do Bonfá falecer. Infelizmente, só deu tempo de gravarmos uma música, mas há boas possibilidades de um novo trabalho com o McLaughlin em 2004, ou até mesmo ainda esse ano, na Coréia, em novembro.

Você sente muita resistência ao português quando canta nesta língua em palcos americanos?

Não, até porque eu canto poucas músicas em português nos shows no exterior. Como eu não fui rotulada de “cantora brasileira de jazz”, mas sim de “cantora de jazz nascida no Brasil (Brazilian-born jazz singer)”, eu não sofro essa cobrança do público nem da crítica estrangeira. As únicas pessoas que reclamam são os brasilianistas xiitas ou os críticos xenófobos nacionalistas, que não entendem que eu faço uma música universal, sem fronteiras. Isso sem renegar as minhas raízes. Eu apenas as internacionalizei, expandi o meu campo de ação. Aliás, o Armando Nogueira escreveu, há poucos meses, um ótimo artigo sobre isso, falando sobre a inveja impiedosa que os artistas que fazem sucesso no exterior sofrem no Brasil. Enquanto os jogadores de futebol que vão para o exterior continuam sendo adorados, os músicos e cantores são execrados, acusados de traidores, apátridas, etc. Vou mandar uma cópia para você ler porque vale a pena.

Depois de um álbum de baladas como Love Dance, o que Ithamara Koorax pretende gravar em seus próximos CDs?

Já estou preparando o próximo disco, que será lançado somente em meados de 2004. Trata-se de uma homenagem a nossa maior cantora de musica folclórica, a Stellinha Egg, de grande sucesso nos anos 50 e 60, inclusive no exterior. Sou fascinada pelo trabalho dela! Stellinha era casada com o maestro Gaya, um dos maiores arranjadores da história da MPB, e gravou várias músicas do Caymmi. Então, algumas estarão presentes no disco. Mas já há pedidos para um outro álbum de baladas, que eu devo gravar com um trio acústico durante a próxima turnê européia. E preparo também uma outra incursão pela área clássica, talvez com a Orquestra Petrobras Pro-Musica, com a qual gravei e fiz concertos em 1998. O mundo é muito lindo e amplo, não quero ficar presa a estilo algum. Gosto de trafegar por todos eles, mas em projetos diferentes. Jamais irei misturar drum & bass, tango, rock e chorinho num mesmo CD, isso é coisa para cantora eclética. Eu sou apenas versátil (Eduardo Bastos).

Panorama

Considerado um dos maiores produtores independentes de jazz do Brasil, o marido de Ithamara Koorax, Arnaldo DeSouteiro, fará uma palestra com o tema Panorama Contemporâneo do Jazz no dia 14, às 17 horas, no auditório da Escola de Administração da Ufba.

DeSouteiro é presidente/chairman da companhia JSR (Jazz Station Records), apontada há dois anos consecutivos entre as dez melhores gravadoras de jazz do mundo pela Down Beat (foi quinta colocada em 2001, e sétima em 2002).

Show com Ithamara Koorax,
Emílio Santiago, João Donato e a dupla Palmyra & Levita, pelo projeto Sua Nota é Um Show

Dia 10 de Outubro de 2003, 18h30
Concha Acústica do TCA
Ingresso: esgotados
Telefone: 339-8014
Show de Ithamara Koorax, com abertura da dupla Palmyra & Levita

Dia 17 de Outubro de 2003, 21h
Hotel Sofitel Salvador, Itapuã
Ingresso: R$ 50 (com direito a buffet
japonês), à venda no local e na Ticketmaster
Telefones: 461-0377 (Ticketmaster) e 8811-5286 (produção)


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Jornal "Correio da Bahia", caderno "Folha da Bahia"

"Demorou, mas entrei pela porta da frente"

Doris Miranda Entrevista Ithamara Koorax
Quinta-Feira, 16 de Outubro de 2003

"Ithamara Koorax é atração do Festival MPB Jazz Sofitel, que acontece amanhã, às 22h, em show com abertura da dupla Palmyra e Levita"

A quarta melhor. Parece pouco, mas não é. Essa é a posição que a brasileira Ithamara Koorax ocupa no ranking do jazz internacional, eleita pela revista Down Beat, a mais importante publicação especializada no gênero musical em todo o mundo. Para se entender a importância disso, basta saber que à sua frente estão apenas Diana Krall, Cassandra Wilson e Dianne Reeves. Depois dela vêm Dee Dee Bridgewater, Norah Jones, Jane Monheit e Shirley Horn.

Muita honraria para o Brasil, como se pode constatar, principalmente depois que se sabe que desfilaram pela mesma lista estrelas como Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Sara Vaughan e Nina Simone. Amanhã, Ithamara canta em Salvador pela terceira vez - a primeira foi em 1994, acompanhando Marcos Valle num show no Teatro Acbeu. Na semana passada, presenteou o público de Sua Nota é um Show. Agora será a vez de quem for privilegiar o Festival MPB Jazz Sofitel, que acontece às 22h, no Hotel Sofitel (Itapuã), em show com abertura da dupla Palmyra e Levita.


FOLHA - O que o público pode esperar deste show? Será o lançamento do CD Love dance (Milestone Records) na Bahia, com repertório centrado nas canções do disco, ou será uma noite de jazz, com direito às tradicionais improvisações pertinentes ao estilo?

ITHAMARA KOORAX - O show de amanhã promete! Será muito espontâneo, já que farei com jazzmen aqui da Bahia, arregimentados pelo trompetista Joatan Nascimento. Faremos alguns ensaios, mas não quero perder o clima de improviso, uma coisa muito excitante, desafiadora, estimulante.

F - Como será o repertório?

IK - O repertório será centrado em músicas dos meus dois últimos discos para a Milestone Records: Serenade in Blue e Love. Inclusive porque a faixa Absolut Lee acaba de ser incluída por Gilberto Braga na trilha sonora da novela Celebridade. Trata-se de uma música inédita de Antônio Carlos Jobim, que ele me mostrou quando trabalhamos juntos em 1994, mas que só agora eu tive autorização para gravar. Aproveitarei para relembrar alguns sucessos dos meus discos anteriores, como Cry me a river (CD Rio Vermelho) e April in Paris (Love dance), que irei recriar com a canja superespecial do violonista Saul Barbosa.

F - Como se sente ao ser incluída entre as cinco melhores cantoras de jazz do mundo pela revista Down Beat, ficando na frente de Shirley Horne, cuja influência sobre você é declarada?

IK - É uma grande honra, mas não poderia ter ficado na frente de Shirley. Isso é um absurdo... Ela canta demais, é a minha favorita. Não posso ficar deslumbrada com essas votações, porque este tipo de coisa depende de uma série de outros fatores... Enfim, não depende apenas do meu trabalho. Mas, para mim, o mais importante é ter gravado com meus maiores ídolos: Tom Jobim, Luiz Bonfá, Mário Castro-Neves, Ron Carter, Hermeto Pascoal, Larry Coryell, John McLauglin, Jurgen Friedrich, Martinho da Vila, Marcos Valle, Sadao Watanabe...

F - Concretamente, o que a posição neste ranking muda na sua carreira?

IK - Estar citada na Down Beat como a quarta melhor cantora de 2002, atrás apenas de Cassandra Wilson, Diana Krall e Dianne Reeves, é uma bênção, uma coisa com a qual jamais sonhava. Essa votação da Down Beat existe há 67 anos e tem uma repercussão tremenda no mundo inteiro, ajuda a chamar a atenção de novos possíveis fãs para os meus trabalhos.

F - Hoje, você é reconhecida entre os maiorais do jazz, mas nem sempre foi assim. Conte um pouquinho sobre as dificuldades que passou. Sofreu preconceito por ser uma artista latino-americana invadindo um meio essencialmente norte-americano? Sofreu recriminações dos colegas brasileiros por fazer sucesso no mercado internacional?

IK - Não posso negar que o mercado americano é muito preconceituoso em relação a artistas estrangeiros. Tanto que já fazia shows e lançava discos no Japão e na Europa desde o início da minha carreira, em 1990, mas só consegui furar o bloqueio nos EUA em 2000, quando assinei contrato com a Milestone. O americano gosta de classificar os artistas brasileiros de "world music" e isso atrapalha muito. Demorei dez anos, mas felizmente entrei pela porta da frente no mercado americano. No Brasil, recebi e-mails agressivos e críticas maldosas quando fiquei pela primeira vez entre as melhores cantoras do mundo na votação da Down Beat em 2000. Teve até um jornal carioca que duvidou. Eu precisei ir a vários programas de TV para mostrar a revista! Aliás, é como Tom Jobim dizia: "no Brasil, o sucesso é ofensa pessoal".

F - O que está planejando fazer em seguida a Love dance?

IK - Além do songbook do Dave Brubeck, que terá várias músicas compostas especialmente para o projeto, já comecei a gravar um tributo em homenagem a uma grande cantora folclórica brasileira chamada Stelinha Egg e ao genial arranjador e compositor Maestro Lindolfo Gaya.

F - Apesar de ser reconhecida como cantora de jazz, você diz que é uma cantora versátil, ou seja, canta o que lhe apraz. Como define o que ou quem vai gravar?

IK - Canto o que me emociona, não importa se é um samba de Martinho da Vila, uma balada de Michel Legrand ou uma peça clássica de Claus Ogerman. Sigo o meu coração e isso vale muito porque passo uma coisa verdadeira, não fui fabricada pela mídia.


Jornal do Brasil


Nossa diva do jazz

"Para chegar lá, Ithamara Koorax adotou o inglês
e preteriu os pubs de Nova York"

Daniela Canedo
22 de Dezembro de 2002

A brasileira Ithamara Koorax foi eleita a quarta melhor cantora do mundo pela revista americana Downbeat, que há 67 anos elege os feras do jazz.

Aos 5 anos, antes mesmo de se familiarizar com as letras do alfabeto, Ithamara Koorax já lia partituras de piano. Seis anos depois, como integrante do coral do Centro Educacional de Niterói, cruzou o Atlântico para participar de um festival internacional de corais na Escócia. Na época, já ouvia Bach e freqüentava a loja de discos Gabriela, em busca dos LPs de Ella Fitzgerald.

A rotina de menina prodígio - que ia a São Paulo todo sábado ter aulas de canto - era um prenúncio do sucesso que estaria a caminho. Hoje, aos 37, Ithamara foi eleita a quarta melhor cantora do mundo pela edição deste mês da revista americana Downbeat, a bíblia do jazz.

foto de Ismar Ingber
Foto de Ismar Ingber

- Estou delirando de felicidade. Levei o maior susto quando o Arnaldo (DeSouteiro, seu marido e produtor) me mostrou a revista - diz ela, que se viu à frente de divas como Abbey Lincoln, Norah Jones e Shirley Horn.

Mas não foi fácil. Só em 2000, dez anos depois de seu primeiro sucesso, Ithamara conseguiu entrar - e em grande estilo - no mercado americano. Para que isso acontecesse, evitou o óbvio e dispensou os shows nos pubs de Nova York. O passaporte foi o lançamento do disco Serenade in blue - My favorite songs pela cobiçada gravadora de jazz Milestone. Aclamado pela crítica, o álbum, que traz clássicos de Tom Jobim, Jorge Ben e Francis Lai, recebeu mais de dez prêmios internacionais e três indicações para o Grammy de 2001. Entre os craques que participaram do CD estão o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, o guitarrista americano Jay Berliner e o arranjador Eumir Deodato, requisitado por Frank Sinatra e Björk.

Em doze anos de carreira, Ithamara participou de 64 CDs, incluindo compilações, trilhas sonoras, songbooks e remixes. O mais recente de seus sete discos solo é o Someday - The ballad album, lançado em outubro deste ano. O disco tem faixa-título, composição e arranjo assinados pelo renomado pianista brasileiro Mario Castro-Neves.

- Ela tem uma enorme extensão vocal, o que é raro. Isso sem contar a interpretação e a beleza cristalina da voz, que são únicas - desmancha-se Castro-Neves.

Outro gênio que participou do CD foi o pianista alemão Jürgen Friedrich, considerado o maior da atualidade.

- Itha tem uma expressão muito verdadeira. Sua integridade e dedicação profissional fazem com que seja um prazer trabalhar com ela - afirma.

Ithamara não está sozinha. Os músicos que a cercam são igualmente talentosos, cada um na sua seara.

- Minha banda (Paula Faour nos teclados, Jorge Pescara no baixo e César Machado na bateria) me deixa nas nuvens. Nunca tive um trio tão afiado - elogia.

Entre as façanhas alcançadas só neste ano, além do lançamento de Someday, estão a inclusão de faixas nos CDs Jazz Ladies, ao lado de Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, e Blue Voices, em que faz companhia a Tony Bennett e Chet Baker. E não pára por aí. A niteroiense que rejeita o rótulo de cantora de MPB participou de shows de jazz e música eletrônica na Europa e ainda gravou a trilha do documentário JK - O menino que sonhou um país, de Sílvio Tendler. Ithamara já havia feito duas outras trilhas para Tendler, além de ter emprestado a voz a nove temas de novelas e minisséries de TV.

- Gosto da voz e do estilo dela. Sempre a sugiro para o diretor musical Mariozinho Rocha - conta a escritora Ana Maria Moretzsohn, autora da minissérie Riacho Doce, cujo tema Iluminada lançou Ithamara em 1990.

No início da carreira, ela teve todo o apoio da madrinha de palco Elizeth Cardoso. Seu primeiro disco solo, Koorax ao vivo, saiu em 1994 no Japão - onde ela é top nas paradas de jazz -, antes de ser lançado aqui. Em outubro daquele ano, quando gravava Rio Vermelho, seu segundo CD, ocorreu um fato curioso. Convidado para participar do disco, o mestre Tom Jobim escolheu, dois meses antes de sua morte, a música É preciso dizer adeus, sua última gravação após o Duets com Frank Sinatra.

- A idéia era lançar o disco em dezembro de 94, mas com a morte do Tom no dia 8, decidi adiar para abril, justamente para não parecer oportunismo. É intrigante o fato de ele ter escolhido uma música com este título. Tom disse ainda que só a tinha gravado duas vezes (com a Astrud Gilberto e com Gal Costa) e que não iria gravá-la outra vez - explica.

O terceiro disco, Almost in love, dedicado a Luiz Bonfá e lançado em 96, teve a participação do baixista Ron Carter. No ano seguinte, foi a vez do Wave 2001, puro acid jazz. Já em 98, veio o Bossa Nova meets Drum & Bass, fusão que consagrou Fernanda Porto.

- O que ela faz hoje eu já fazia há quatro anos - alfineta Ithamara.

Em janeiro, a diva - que não pára - se apresenta no Mistura Fina nos dias 3 e 4. Com ou sem show, faz aulas de canto quatro vezes por semana.


Jornal "Estado de Minas" - Belo Horizonte
10 de Setembro de 2003

A VOZ DO JAZZ

Entrevista completa em:
vozjazz.pdf

A talentosa cantora Ithamara Koorax fala para os leitores do Alô Música sobre seu novo disco, o show no Mistura Fina e a parceria profissional com o produtor Arnaldo DeSouteiro e os músicos que a acompanham, em entrevista concedida a pesquisadora (e sua grande amiga) Heloisa Tapajós.

Heloisa Tapajós - Ithamara, uma curiosidade: qual é a sua extensão vocal?

Ithamara Koorax - Cinco oitavas.

Heloisa Tapajós - Além da emoção que passa quando canta, você se destaca também pela técnica vocal impecável. Percebe-se a sua dedicação profissional. Qual é a sua rotina em termos de cuidados e exercícios com a voz no seu dia-a-dia e nos períodos de gravações e shows?

Ithamara Koorax - Esteja ou não fazendo shows ou gravando, eu geralmente faço aula de canto quatro vezes por semana para exercitar a voz, a musculatura, o diafragma. Tem também um outro tipo de estudo, também constante: o de ouvir muita música, ouvir muitos discos, principalmente de músicos de jazz, porque eu aprimoro meu fraseado estudando os solos de gente como Miles Davis, Chet Baker, Art Farmer, não por coincidência todos eles trompetistas. Entre as cantoras, as que eu mais estudo e analiso atualmente são Shirley Horn, Rachelle Ferrell, Betty Carter e Helen Merrill. Fora isso, em matéria de cuidados são coisas simples como jamais beber água gelada, não fumar, evitar falar ao telefone em vésperas de shows, etc.

Heloisa Tapajós - Você vem colecionando uma quantidade incrível de prêmios ao longo da sua trajetória artística e no ano passado foi considerada a quarta melhor cantora de jazz do mundo, pela revista "Down Beat". Foi essa a sua maior emoção em termos de reconhecimento do seu talento?

Ithamara Koorax - Em termos públicos e profissionais foi sim, pela importância da revista e dessa votação, que já existe há 67 anos! Nos livros e enciclopédias sobre músicos de jazz, os resultados das votações da "Down Beat" servem como referencial para as fases de maior popularidade e reconhecimento de um artista. Então eu me sinto realmente muito feliz. Mas não fico deslumbrada, porque amanhã eu posso ficar em sexto ou em décimo lugar, independentemente do meu trabalho. Porque essas colocações dependem também de uma série de outras coisas: a publicidade da gravadora, a repercussão dos discos perante os críticos, a execução nas rádios, muita coisa junta. Então, se alguma das peças dessa engrenagem falhar, o trabalho artístico pode não ter a visibilidade que eu sempre desejo. E a gente tem que saber lidar com esses altos e baixos. Agora, em termos pessoais, existem prêmios de valor inestimável que eu considero mais importantes do que qualquer colacação na "Down Beat". Por exemplo: ter gravado com Tom Jobim e Luiz Bonfá foi uma emoção insuperável na minha vida. Ter gravado também com ídolos como Ron Carter, Larry Coryell, Eddie Gomez, Art Farmer, Gil Goldstein, Eumir Deodato, Mário Castro Neves, com o Jay Berliner, que foi guitarrista do Charles Mingus e do Frank Sinatra, com quem gravou o "New York New York", com o Jurgen Friedrich... Entrar num estúdio com esse pessoal marca a vida da gente.

Heloisa Tapajós - Você tem a seu lado um produtor talentoso e competente, o Arnaldo DeSouteiro. Como é essa parceria profissional?

Ithamara Koorax - Embora o namoro tenha começado em 1990, somente começamos a trabalhar juntos a partir de 1994, quando eu comecei a preparar meu segundo CD, o "Rio Vermelho", que elaboramos juntos. Até então, apesar dos meus insistentes pedidos, ele me esnobava...(rssssss). O Arnaldo se limitava a dar uma ou outra opinião, mas depois dos trabalhos já prontos, então não dava para mudar nada. Às vezes ele me levava de carro para os estúdios, mas nem entrava...! Até a época do "Rio Vermelho" ele não tinha sequer assistido a uma gravação minha. Nem no show na Sala Funarte, que resultou no meu primeiro CD, "Ao Vivo", que ganhou o Prêmio Sharp em 94, ele foi! Pior era quando ele aparecia em algum show sem me avisar, comprava entrada e ia embora sem falar comigo. Quando eu chegava em casa e começava a contar como tinha sido o show, ele dizia: "Eu sei, eu tava lá..." (rss). Nas três primeiras turnês para o Japão, eu também fui sozinha, ele passou a ir trabalhando comigo somente na viagem em 96. Na verdade, antes de 94 o Arnaldo me ajudou duas vezes. Primeiro, ao me indicar ao produtor Creed Taylor para um disco do Art Farmer para a gravadora CTI, que foi feito em 91. Como ele estava indo a Nova York na mesma época, para mixar um disco do Bonfá ("The Bonfa Magic"), para o qual ele não me convidou... Acabamos viajando juntos e ele atuou como co-produtor no disco da CTI, somente porque o Creed praticamente exigiu isso, já que ele (Arnaldo) tinha sugerido grande parte do repertório. Depois, quando eu voltei de uma viagem ao Japão com um contrato assinado com a JVC para lançar o disco "Ithamara Koorax Ao Vivo", ele se ofereceu para remixar o CD em Los Angeles, porque achava que o som não estava à altura de um lançamento internacional. Mas depois do "Rio Vermelho", ele passou a produzir todos os meus discos. O disco de estréia, apesar do Prêmio Sharp, apesar das criticas excelentes e de ter vendido bem no Brasil, foi um completo fracasso de vendas no Japão, porque o repertório era uma MPB muito refinada, com arranjos camerísticos, tipo unplugged, antes do unplugged virar moda. Não tinha elementos jazzísticos nem era world-music, porque não tinha baticum nem exotismo algum. Os críticos japoneses ficaram confusos, as rádios acharam as músicas do Guinga muito complicadas, as lojas não sabiam como rotular aquilo. A partir do "Rio Vermelho" tudo mudou, porque fui gradualmente me voltando para o jazz, contei com as participações de músicos famosos, teve uma faixa ("Cry me a river") que estourou nas rádios japonesas e o CD chegou ao décimo lugar na parada pop. Por isso tudo eu acho que o Arnaldo teve e tem um papel fundamental na minha carreira. Sem me obrigar a nada, ele me fez descobrir o que eu realmente gostava de cantar, sempre apoiou minha versatilidade, nunca quis me confinar a um estilo, e teve idéias pioneiras de gravar acid-jazz em 96 (o CD "Wave 2001"), de gravar o CD "Bossa nova meets drum & bass" em 98, quando ninguém no Brasil sabia o que era drum & bass, tanto que acham que a Fernanda Pôrto foi a primeira a fazer essa mistura que eu fiz há 5 anos, adaptando músicas do Jobim e do Bonfá para as pistas de dança e incorporando DJs como Marcelinho da Lua e Dudu Dub em shows de grande sucesso que fizemos no Ballroom (Rio) e nos SESCs de São Paulo.

Heloisa Tapajós - Constam de sua discografia oito CDs, numa média de um lançamento por ano desde o início de sua carreira, além de diversas participações em discos coletivos, trilhas sonoras de filmes e novelas de televisão e songbooks de vários compositores. Fale um pouco desse novo trabalho, o CD "Someday - The Ballad Album".

Ithamara Koorax - Foi, como todos os outros, um disco concebido da forma mais natural possível. Passamos uma noite ouvindo sem parar um disco chamado "September Ballads", do Mark Murphy, um dos meus cantores favoritos, e com participações de músicos como Art Farmer e Larry Coryell com quem eu já tinha gravado. No dia seguinte, tivemos a idéia de fazer também um disco somente de baladas. Não necessariamente de standards, tanto que só tem dois standards no disco: "April in Paris" e "As Time Goes By", que entrou apenas na edição para os países asiáticos como faixa bonus. Mas todas as músicas, seja "Ligia" (do Tom) ou "Amparo" (do Tom, Chico e Vinicius) ou "La Puerta" (um bolero que todo mundo conhece) ganharam um tratamento jazzístico muito refinado. Tem também músicas inéditas, lindíssimas, feitas especialmente para o projeto pelo Mário Castro Neves, um gênio pouco conhecido no Brasil porque mora há mais de 30 anos em Nova York, e pelo Jurgen Friedrich, um geniozinho de 20 e poucos anos que vem sendo considerado o melhor pianista no cenário europeu de jazz contemporâneo. O disco demorou mais de dois anos para ficar pronto, porque foi gravado em várias partes do mundo (Londres, Monte Carlo, Colonia, Nova York) e eu dependia das agendas dos músicos, e também da agenda do Arnaldo, que vive ocupado com milhares de projetos. Mas a espera compensou porque ficou um trabalho lindo, provavelmente o disco mais requintado, mais clássico que eu já fiz. Claro que não vai vender tanto quanto um "Serenade in Blue", ou um "Bossa Nova meets drum & bass", mas pode firmar meu nome na história do jazz.

Heloisa Tapajós - Que surpresas reserva à sua platéia o show de lançamento do disco no Mistura Fina? Quais os músicos que estão no palco com você?

Ithamara Koorax - Meu trio fantástico, com o qual eu já trabalho há quatro anos (Paula Faour nos teclados, Jorge Pescara no baixo, César Machado na bateria), ganhou a adesão de Dino Rangel na guitarra e do Marco Antonio Monteiro na harpa. O Dino, um guitarrista fantástico, do nível de Joe Pass, eu já conhecia há muitos anos, porque nascemos em Niterói. Mas tocamos juntos pela primeira vez em 2000, num show do meu querido super-baterista João Palma, e foi amor à primeira nota. O Marco Antonio, um dos melhores harpistas do Brasil, eu conheci quando fiz um concerto, em 1998, na Igreja da Candelária, com a maravilhosa Orquestra Brasileira de Harpas, da qual ele faz parte. O repertório do show inclui músicas do novo disco ("Ligia", "April in Paris", "I Loved You"), músicas dos discos anteriores ("Un Homme et Une Femme", "Moon River", "Samba de Verão") e canções que eu nunca gravei mas adoro cantar, tipo "The Windmills of Your Mind", do Michel Legrand, "The Look of Love", do Burt Bacharach, e até "The Lady is A Tramp" com uma levada de samba-jazz e letra em português do Lennie Dale, com quem eu cheguei a estudar dança. Tem também as músicas que o público sempre pede, como "Black is Beautiful" e "Desafinado", além do "Mas Que Nada" (da qual já fiz quatro gravações diferentes), que virou o bis oficial do show.

Heloisa Tapajós - Realmente, não dá pra gente voltar pra casa sem ouvir a sua fantástica interpretação de "Mas Que Nada"! Alguma mensagem para os leitores do "Alô Música"?

Ithamara Koorax - Continuem prestigiando sites desse nível, porque isso traz benefícios para todos, e o público sempre sai ganhando ao ter acesso a informações que às vezes não chegam à chamada grande midia, ou que as grandes redes (seja radio, Tv ou jornal) não querem divulgar porque nada têm a lucrar com esse ou aquele artista. Uma coisa muito triste mas que infelizmente acontece muito.

Heloisa Tapajós - Itha, muito obrigada pela entrevista, em nome do "Alô Música", e parabéns pelo belíssimo trabalho que você vem fazendo.

Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 2003